23 de setembro de 2013

How to disappear completely




    Mais um texto sobre frustração. Sobre o probleminha que é ser o que se deve ser. Sobre os clichês que vem com o frio. Acho clichê escrever sobre clichês, mas fica difícil fazer algo diferente quando se vive o maior de todos os clichês que é a tristeza. Mas não se trata disso. Você não entende. Você nem se interessa, mas vem aqui. Estende essas mãos lisas, essa pele macia de gente que nunca sofreu com a vida. Vira pra mim esses olhos puros de quem poucas vezes derramou uma lágrima e pega, ó, aqui, ta vendo? Isso aqui, no meio do peito, consegue enxergar? Parece só um vazio (é como se sente no início), mas é muito pior do que isso que sua cabecinha encantada com a vida entende. Essa coisa enorme e obscura é minha dor. Essa aglomeração de coisas piegas. Vê como palpita? As vezes explode do nada, assim, em dias como esse e fico desse jeito que você ta vendo. Hoje foi um daqueles dias em que fiquei totalmente dentro de mim. Devaneei na chuva, Radiohead soando através dos fones de ouvido e só pensava no meu desamparo e, conseqüentemente, na constante incompreensão alheia. Na brutalidade de vir assim, sem mais nem menos, gerando uma dor a mais nessa comunidade que mora em meu corpo. Tocando nessas dores não por curiosidade ou pena, mas por puro prazer.
Quando fico triste, acabo me odiando ou odiando o mundo. Fiz os dois, e saí dessa experiência ainda mais arrasada. Não é fácil. Não quando você acha que se superou depois de umas semaninhas de paz e de repente é esmagada dessa forma, simplesmente porque choveu. Hoje culpei Tom Yorke. Culpei o trânsito angustiante das ruas. Culpei a vendedora de balas que sabe sorrir enquanto mantenho esses lábios rígidos feito duas linhas paralelas. Culpo o mundo mas não assumo. Não. Assumo. Boca fechada pro maior motivo. Baixinho pra ninguém ouvir: a culpa é minha.

2 de fevereiro de 2013

Mais do mesmo


Eu não sei me amar. Eu não sei vestir a capa da auto-segurança. Tenho 17 anos de idade e ainda não aprendi a lidar com a sociedade sem parecer uma louca. Não o tipo louca-divertida que faz uma palhaçada pra tirar os amigos da rotina e todo mundo curte. Eu sou o tipo que surta e desata a falar no quanto as pessoas são más e ninguém gosta de mim e que não entendo porque todo mundo sempre vai embora, quando na verdade sou eu quem foge de todas as formas de comunicação possíveis.
Pela manhã levantar. Espanar o pó da escrivaninha, a louça suja, fazer a cama. Comprar legumes pro almoço e colocar os fones de ouvido. Porque eu não sei ligar o automático no ônibus, quando a menina bonitinha se exibe pro menino bonitinho e eles se beijam. Porque eu não sei como se faz pra ser segura ou divertida. Eu não sei deixar de ser carente ou sozinha ou chata – quase insuportável. Mas sou uma boa menina, sou tão eficiente e flexível... Eu cozinho muito bem, tenho bom gosto musical. Leio coisas boas e gosto de pensar na complexidade da vida; Eu sou uma bailarina muito dedicada, aliás, eu sei fazer tripla pirueta. Preparo um bolo de chocolate vegano ma-ra-vi-lho-so. Eu nasci com o dom de descobrir bandas legais que ninguém nunca ouviu. Amo os animais a ponto de me abster de qualquer alimento ou produto proveniente de seus respectivos sofrimentos. Sei esconder magicamente todas as espinhas com maquiagem barata. Me visto bem e, modéstia parte, sou compreensiva e tolerante. Mas não sei ser feliz. Eu não sei ser legal sem perder minha essência. Porque eu faço parte do pior tipo de gente: o tipo de gente que pensa. Faço parte do tipo de gente que não sabe ligar o automático.
Eu não sei ser como as pessoas que levantam e se divertem e saem de noite e vivem a vida. Porque eu penso repenso e trepenso. Aquela colega me convidou pra viajar com ela, mas acho que é melhor ficar sozinha porque eu prefiro ficar em casa, e me lamentar. Prefiro cuidar dos meus gatos que não podem passar duas semanas sem mim. Decidi não correr riscos, porque eu não sei esquecer a tristeza. Porque eu não sei me amar e, conseqüentemente, não sei amar ninguém por mais que esse seja meu maior desejo. Vivo num impasse entre parar de me adaptar ao mundo vs. deixar que o mundo se adapte a mim. É que desaprendi a lidar. Amanhã eu levanto e leio Caio Fernando e danço e descanso. Amanhã ouço Fresno, Cícero, Radiohead outra vez. Amanhã eu tento fazer algo útil, mas por enquanto vou apenas sentir toda a ojeriza por ser a pessoa mais desprovida de amor que conheço. E eu poderia terminar esse texto dizendo qualquer coisa, mas vou dizer apenas que entendo perfeitamente a frase “não é todo rio que tem um mar pra se encontrar”.

10 de junho de 2012

Pra ninguém

O mundo é infinitamente mesquinho, minha amiga. As pessoas, em uma grande (e triste) maioria, são absurdamente egoístas. E não escrevo como uma mulher revoltada ou cansada, não pense isso de mim. Escrevo apenas como alguém que viu e viveu a situação por tempo demais pra fingir algum controle agora. Deixe-me explicar antes que tires conclusões precipitadas: ouço constantemente frases como “seja você mesma” e desde o nascimento passo pela mesma situação desagradável. Porque as pessoas não querem a companhia de alguém verdadeiramente sincero e sim de alguém legal (exatamente o tipo de gente que eu não suporto), que inspire confiança, paz, a merda que for: alguém comum. E a questão é que eu não sou nada disso, por muito tempo tentei e há muito desisti. Mas isso não me privou de continuar a sofrer (sem querer parecer dramática) porque boba, iludida com o entusiasmo de uma nova amizade (que gerava uma tristeza sufocante ao chegar a um fim) eu sempre pensava: finalmente encontrei alguém com quem poderei ser eu. E então me abria, exibia meus medos, minhas musicas, minha vida (como incentivavam) e via, semanas ou até mesmo dias depois a pessoa ir embora, dizendo que não, que eu nós não combinávamos, que não daríamos certo, ou não dizendo nada e me deixando assim, sozinha. E eu fico puta com isso. Fico abismada com a hipocrisia geral, com o costume da massa de gritar “seja você mesma” esperando que eu seja nada além de receptiva, ajustada, feliz. Porque sempre fui aquela que grita no silêncio, que fala o que pensa (incluindo o que não devia), que é chata o tempo todo e nunca vai entender completamente. Sempre fui aquela que não vê a menor graça nas coisas da mídia simplesmente por estarem na mídia e nunca escondi de ninguém ou tentei ser Outra Pessoa. E o que acaba com minha paciência é isso: saber que só querem ver meu Verdadeiro Eu se ele for o eu mais meigo e fofo e puro e lindo do mundo. É saber que nunca poderei ser Quem Sou porque todo mundo vai cair na minha pele. Saber que nunca gostarão de mim porque o mundo não gosta de pessoas estranhas e verdadeiras (infelizmente). E saber que eu estou escrevendo pra alguém que nem existe por que foi a única coisa que restou-me fazer.

30 de maio de 2012

Milésimo e ultimo

Estávamos sentadas na sua cama estudando matemática quando você disse que eu mal sabia fazer um calculo. E que eu iria me ferrar na prova. E que você gostava de me irritar e não estava nem ai se isso me incomodava. Pela primeira vez no dia eu quis ir embora.
Depois eu estava na cozinha, havia comprado verduras e as cozinhava exclusivamente pra você. Então você passou dizendo que meu brócolis estava feio e amarelo. Provou um pedaço e disse estar sem gosto. Afirmou que não ia comer.Eu dei de ombros, ignorando sua frieza por não ter nenhuma outra opção. Foi a segunda vez que eu quis ir embora.
Horas mais tarde sua mãe nos mandou ir à padaria e saímos juntas. Me mantive otimista, jogando uns verdes descarados sobre não gostar das suas implicâncias. Você não se importou.  Me senti mal, tão incomodada com as suas variações constantes de humor que  decidi ir embora. Você me pediu dinheiro para o cigarro e eu neguei, dando sermão. Você não gostou mas voltou a agir normalmente quando eu disse que me preocupava com você. Então lembrei que precisava ir na casa de uma pessoa que morava a uns bons quarteirões, uma caminhada de 20 minutos. De lá, eu poderia pegar o ônibus e seguiria pra casa. Despedi-me de sua avó, sua mãe e seu padrasto. Você aceitou ir comigo, fomos caminhando pelas ruas cheias quando tive outra vez (depois de mais de um ano) a sensação de que era legal ser a gente de novo, que daríamos certo outra vez. Porque quando você não estava tentando me irritar ou sendo arrogante, eu simplesmente amava sua presença, seu jeito descontraído, a forma que você era diferente de todas as outras pessoas.
Eu quis te dizer o que eu sentia, quis desabafar sobre meu incomodo, e foi então que começamos a conversar durante o caminho, alias, acho que quando estamos andando não há nada a se fazer além de conversar. Perguntei por que você havia mudado tanto e você disse que era a mesma, exatamente como eu esperava. Eu disse que me sentia uma intrusa, uma burra, uma boba por continuar tentando ser sua amiga outra vez enquanto você nem se importava. Você disse que eu estava louca, que você se importava sim. Reclamei sobre você criticar meu brócolis e meu intelecto, e você disse que estava apenas brincando, que não era a sua intenção. Eu disse que sentia não te conhecer mais, e você respondeu que lamentava, que não entendia o que tinha acontecido, que era só uma fase. Perguntei se você pretendia sair dela e você disse que não sabia, mas estava tentando. Eu dei outro sermão, e dessa vez você me ouviu e pareceu entender.  Fiquei tão feliz por isso que me esqueci da hora em que você ficou falando de outras, elogiando sua namorada. Esqueci-me de que você não tocou no brócolis na hora do almoço, que você não ligou quando eu falei de um cara. E então o assunto mudou para sexualidade e, pela primeira vez na vida, tive coragem de lhe dizer que as vezes me afirmo ser determinada coisa apenas para não encarar a sociedade. E você disse que sabia, que sempre havia sentido isso, que sempre teve esse feeling. Falamos sobre budismo, espiritismo, cristianismo e sobre você. Você me contou de quando pediu ajuda chorando a sua mãe para sair da fossa e eu achei lindo, fiquei maravilhada. E lembrei-me de um momento, na cozinha, em que ela disse que você era uma pessoa melhor quando eu era sua amiga.
Foi quando chegamos à casa do tal alguém que eu deveria cumprimentar. Minhas pernas doíam. Chamei inúmeras vezes e para minha surpresa, ninguém atendeu. Fiquei frustrada, olhando o portão de madeira, esperando você reclamar por ter andado a toa. Até eu ficaria com raiva, naquela hora. Mas você se limitou a perguntar onde eu pegaria o ônibus e eu apontei para a placa, do outro lado da rua. Então, sábia, você fez aquele rosto com as sobrancelhas juntas e os lábios repuxados num bico. E disse que não queria voltar sozinha. E curvou a cabeça. E nós olhamos juntas pro fim da rua que estávamos, e lá, muito longe, podia ver vagamente a ponte que atravessaríamos pra entrar na sua rua se eu voltasse. Seriam mais 20 minutos de caminhada. Dei de ombros, demos meia volta e refazemos todo o caminho. Eu sentia que finalmente havia te entendido, que você havia compreendido meu medo e poderíamos ser amigas de novo. E voltamos pra sua casa, abismadas com a nossa sinceridade para com a outra.
Sua mãe sorriu quando me viu chegar outra vez. Eu disse que havia voltado, mas não ia ficar muito tempo e ela disse que eu era bem vinda sempre que quisesse ir lá. Foi quando percebi que, perto das pessoas, você era outra. Estávamos sentadas na varanda quando você começou a discutir vegetarianismo comigo e disse que eu era sensível, boba demais. E depois, enquanto lanchávamos, você voltou a ser exatamente a mesma de 1h atrás: a menina arrogante que eu não conhecia. A estranha no corpo da minha amiga. E eu disse outra vez que você estava sendo rude e que era como se não houvéssemos tido conversa nenhuma, porque você estava me maltratando. Foi a terceira vez que quis ir embora, e dessa vez a vontade me veio como um tapa na cara, porque estávamos ótimas e de repente você havia estragado tudo.
Fomos para o seu quarto e você colocou uma música do Legião Urbana.  Eu disse que não era fã da banda, que queria mesmo ouvir Los Hermanos. Então você começou a berrar que LU era melhor que LH e só as pessoas estranhas que andavam comigo discordavam disso. E você começou e discutir outra vez, questionando meu gosto musical, meu corte de cabelo, meu eu.
Foi quando eu me enchi. Peguei a bolsa e bati porta do seu quarto respondendo que eu não agüentava mais. Me despedi outra vez - muito rapidamente, e gostaria que houvesse demorado - de sua família, dando tchau de longe. Caminhei até o portão, percebendo, então, que chovia muito forte (e é verdade, não estou inventando). Parei debaixo da cobertura de seu muro, do lado de fora da casa, recostando-me no portão. Quis chorar, quis voltar por uns segundos pra te dar tchau pela ultima vez, mas não o fiz. No bar ao lado, Adriana Calcanhoto chorava "rasgue as minhas cartas e não me procure mais". Estendi o braço para o temporal, dividida entre me afastar logo ou ficar ali embaixo, me protegendo da chuva. Olhei para o quintal mais uma vez, e vi que não, você não vinha nem viria atrás de mim. Deixava-me partir tranqüilamente, ir embora feito algo sem valor porque você simplesmente não se importava. Respirei fundo, me afastando o máximo possível do seu portão de ferro e olhando pela ultima vez a arvore esverdeada do corredor da sua casa. Lembro-me que começou a tocar Bleeding Love e eu quis me jogar no chão e chorar outra vez. Mas não o fiz. Não chorei, não gritei e não voltei. Dei sinal para o ônibus que passava e vi sua rua ficar pra trás enquanto eu me sentava no banco. O ônibus fez exatamente o mesmo caminho que havíamos percorrido em paz e em vão, pouco tempo atrás. Mas me recusei a olhar para a janela ou me martirizar. Coloquei os fones de ouvido, engoli em seco e, bem alto (mesmo que em minha cabeça) te gritei um milésimo e ultimo adeus.

28 de janeiro de 2012

Sobre insignificância, carência e saudade


"Ah, mas tudo bem, em seguida todo mundo se acostuma. As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade... Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é."
Hoje passei em frente ao ponto onde eu e você, debaixo do sol, parávamos para esperar o ônibus que nos levava até a sua casa. Lembrei das tantas vezes em que fui até lá: a primeira, em que sua avó me recebeu de braços abertos; a ultima, em que eu estava bêbada e gritei com você; e uma em especial: aquela noite em que eu disse não a algo que poderia ter mudado toda minha vida. Lembrei da sua cama escura, a mesa cheia de caixas e papéis, a bicicleta de ginástica que ficava no canto da sala, perto da TV. Senti tanta falta do seu sofá clarinho, sua casa quentinha, seu cachorro vira-lata, sua avó e sua mãe – que eu chamava de minha – e quase chorei. As memórias me atingiram instantaneamente, livres para causar o dano de querer voltar atrás: teu cabelo encaracolado, teu casaco cheio de bolinhas, teu cheiro excêntrico e doce que nunca mais senti. E mais: tua mania de fumar, o jeito como andavas de cabeça baixa, teu defeito de sofrer um pouquinho por todo mundo. Naquele tempo, eu significava muito pra você e minha autoconfiança me fazia não dar a mínima pra isso. Mas aí aconteceu um reboliço, lembra? E eu cortei os pulsos, mudei de curso, berrei meu pânico, saí da área de publicidade, perdi seu telefone e você sumiu da minha vida. O tempo passou. E mais que isso: você me esqueceu. Pois é.
Por incrível que pareça, depois de tantas conversas, ligações e cartas, agora sou eu quem escreve e sente saudades. Sou eu que no ápice de minha insignificância, no ponto alto de minha carência, na envoltura de minha saudade vê: você significou muito pra mim e eu acabei sendo nada além de passado para você, menina. E lembro-me do Caio, daquela citação antiga que agora vivi: toda atenta para não errar, errava cada vez mais. Compreende? Eu sei que é tarde demais e você está bem sem mim, mas ando pensando em você. E ando pensando em como tudo poderia ser diferente se naquela noite de Abril, deitada ao seu lado na cama, eu houvesse dito a verdade quando você perguntou "o que você faria se eu te beijasse?" Agora posso entender: eu disse "não sei" apenas porque não tinha coragem de assumir que você era o que eu queria mesmo. Apenas porque naquela noite eu era nada além de uma garotinha preconceituosa consigo mesma e com as outras formas de amor. E talvez até continue sendo – acho que continuo vivendo como sempre vivi, tentado ser feliz, tentado ser alguém, mas foi inevitável lembrar-me de ti e de tudo que aconteceu ao passar em frente ao ponto, nosso ponto. Você sempre me aceitou como fui, sempre me fez achar tudo mais bonito, sempre me fez rir como ninguém fazia e acho que se eu houvesse quebrado estereótipos, se houvesse aberto mão de minhas cismas, se houvesse dito o que sentia e não o que pensava ao menos naquela única noite de Abril, minha vida poderia ter sido diferente. Talvez eu não houvesse mudado de curso, saído da publicidade, perdido seu telefone, cortado meus pulsos. Talvez eu não estivesse tão sozinha a ponto de me sentir totalmente dispensável por todos, tão carente.
Eu sei que já faz quase um ano, mas eu não agüento mais passar em frente ao nosso ponto e querer chorar. Não agüento mais ler O Retirante e lembrar-me de como você se orgulhou de mim. Não agüento mais ouvir My Heart sabendo que essa musica foi o motivo de termos nos conhecido. Não agüento mais pensar em como tudo poderia ter mudado: sinto tanta saudade da gente… Era só isso que eu queria dizer.
"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais – por que ir em frente?"
Citações de Caio Fernando Abreu. Carta escrita em 27 de Janeiro de 2012 às 02:19 da manhã.

8 de outubro de 2011

Por mim


Inspiro. Expiro. Sinto a borda gelada da porcelana branquinha. Sinto a ânsia que vem com a dor e quase tira meus pés do chão. Tomo o cuidado de não olhar para o que faço. Tomo o cuidado de não ouvir o barulho do meu medo. Sim, medo. Não é só pelo corpo, garotão. É pela alma também. É pela alma que eu coloco o dedo na goela e me esvazio do mundo. É pela alma que me ajoelho e te expulso de mim. Com um silencioso grito, te coloco para fora. E é vomitando que eu encontro um pouco de eixo. Bem ali, com a cara na privada, querendo esta em qualquer lugar do mundo onde não me lembraria do peso imenso que é ser eu. E se faço que faço, é pra me esvaziar de mim também. Livrar-me da minha pessoa decadente. Livrar-me do fracasso que sou.
Tomo o cuidado de não dar ouvidos aos outros. Tomo o cuidado de ignorar as piadinhas. Faço uma força imensa para não ver e ouvir as coisas ruins que dizem ao meu respeito. E é difícil. Que tal eu me dar uns bons tapas na cara já que sou tão má? Porque é isso que andam dizendo. É isso que a borda clarinha da privada diz. É isso que a água fresquinha que escorre da torneira diz também. É pela raiva que sou como sou. É pela frustração que sinto o que sinto. Não é pelo que vão pensar de mim que ando fazendo o que faço. É pelo que fui e perdi. É por todos os olhares que dirigem a mim me fazendo chorar. É pela lagrima que escorre e me faz pensar que a culpa é minha se o cachorro tá morrendo lá na rua porque eu poderia ter feito algo quando não fiz nada. É pela dor que sinto de ser eu e estragar tudo sempre. É pelo medo que vem de todos os lados e me atinge com todas as flechas quando abro os olhos pela manhã. Medo. Sempre o medo. Do escuro, do vento, das pessoas, de mim. Medo do meu super poder que é arruinar tudo. É pelo peso imenso que se aloja em minhas costas apenas porque coloquei o pé no portão. Pela tristeza que está constantemente derramada sobre mim. Pelo fracasso que é uma capa invisível em minhas roupas coloridinhas de menina-que-é-alegrinha-e-sabe-se-vestir. É sobre isso, e para fugir exatamente disso, garotão. Para fugir exatamente disso que enfio o dedo na goela e vomito. É pra pedir perdão, mamãe, por eu ser um fracasso. Perdão, papai, por eu não conseguir te entender. Perdão, perdão, perdão, meu Deus, por não ter desempenhado o papel que escolhes-te para mim. Perdão.
Inspiro. Expiro. Lavo o rosto, o pescoço, o corpo. Coloco as meias branquinhas, o vestido floridinho, os sapatinhos de boneca, a capa invisível. Tomo o cuidado de não olhar pra trás. Tomo o cuidado de não me martirizar por não poder fazer nada além de esperar a próxima vez. E me arrasto mais uma vez pra cama, fecho os olhos e finalmente tento fugir decentemente deste mundo imenso e feio onde o suicídio é a única e talvez até a melhor opção.