30 de abril de 2011

Destitulado

Tenho pensado muito, menina. Hoje andei pela casa, fechei os olhos e respirei fundo. A bica da cozinha fica pingando, pingando, pingando, e aquele barulhinho chato das gotas caindo e batendo na pia me fazem pensar no tempo que passa sem parar, e acho que nunca na vida me senti tão sozinha.
De repente, veio aquela vontade de novo. Sim, tenho pensado muito em quedas de precipícios e cortes no pulso. Tenho pensado em remédios e mortes instantâneas. Tenho pensado em pessoas que fazem as malas e vão embora, pessoas que somem sem explicação, sem dramas, sem choro. E tenho pensado, sobretudo, na solidão. Nem em todos os meus poucos anos de vida, menina, imaginei que poderia ser tão sozinha. Essas reviravoltas me implodem de uma forma indescritível – me destroem por dentro. Nunca imaginei que um ser humano era capaz de suportar tanta porrada da vida e continuar vivo. Eu continuo. Não sei até quando, mas continuo.
Agora tive de aceitar que ninguém quer entrar na minha vida. Tudo que ouço é o silêncio e as gotas pingando. Fico chorando, vagando entre lugares confusos da minha mente, entre bares e praças, e me sinto insignificante igual a essa torneira: pingando, pingando, pingando... Numa rotina incansável. Já não gosto mais de sair, me frustra ver que todos com exceção de mim têm uma vida. As pessoas e suas palavras não ajudam em coisa nenhuma, e eu sou demasiadamente sensível e ainda sinto muita falta de como tudo era simples e fácil, de como tudo fluía, de tudo aquilo que eu tinha e de repente, acabou. Dói ter perdido tudo e todos e nem saber o por que. Dói não ser nada além de um objeto que nunca vai funcionar direito. Dói ser deixada de lado, esquecida como louça suja na pia, torneira aberta no banheiro, fruta mordida apodrecendo no lixo… A situação é devastadora. Acho que era essa a palavra que eu procurava para minha vida ultimamente: Devastadora.
Não agüento mais ter sempre que explicar a todos que não tem jeito. Tudo é tão nítido agora. Meus olhos estão tão cansados… A dor lateja feito álcool pingando em ferida aberta. Nunca chorei tanto, nem me senti tão mal. Prometo que serei compreensiva se você pensar ‘não tenho nada a ver com sua tristeza seus pensamentos e seu suicídio’, mas escrevi porque só me restou você, depois de tudo e de todos, só me restou você, e eu precisava avisar a alguém de que eu não pretendia pular do barco antes de chegar a meu destino final. Escrevi, e paro aqui, pois escrever me traz lembranças que me fazem pensar no tempo, e pensar no tempo machuca a alma. Então te abraço, desejo sorte e felicidade, desejo tudo de bom e uma vida de muito amor e fé – porque não se você entendeu minhas palavras, menina, mas essa é minha carta de adeus.