26 de maio de 2011

O Retirante

       Parei na janela e fiquei sentindo o ar pesado e frio daquela atmosfera cinza e claustrofóbica. Tenho certeza de que se você estivesse ao meu lado, sorrindo aquele sorriso que faz com que seus olhos desapareçam e falando as suas bobagens, eu esqueceria o frio e a chuva e até meu nome.
Mas outra vez você não estava então fiquei olhando através do vidro sujo da janela e não consegui ver nada além de seres humanos robóticos seguindo pra suas rotinas super tecnológicas. Eu acho incrível a forma como as coisas parecem chatas e automáticas sem você, porque eu sei que estou fazendo isso errado, assim como sei que não queria tanto quanto você colocar um ponto final na gente. Só que enquanto eu lutava para fazer com que as coisas funcionassem você lutava para não deixar eu confesso que cansei de remar contra a maré. Mas quando eu respondi com ironia, só estava tentando te fazer provar do próprio veneno. E quando eu disse que estava tudo acabado, eu só queria que você aprendesse e não fizesse mais. Só que você demorou. E eu desisti. E quando você pediu perdão milhares de vezes, foi o meu momento. Eu bati no peito e botei fé na história de que eu posso viver sozinha e muito bem. Daí pra frente, desandei.
Peguei todas as suas coisas e joguei fora. Joguei aquele macaco de pelúcia com seu nome, a nossa foto desbotada e aquela roupa minha que você tanto gostava. Joguei a festa marcada pro domingo, aquela folha em que eu escrevi seu nome, a musica que a gente sempre ouvia junto, e você. Joguei você e suas coisinhas estranhamente especiais. Joguei a forma que você aperta os olhos, a forma que você anda desleixado, a forma que seus lábios fazem quando você se irrita e até mesmo a forma que o seu cabelo é alinhado de manhã. Despachei tudo no lixo, não sei onde, mas bem longe. Num terreno baldio, no Pólo Norte, em Marte, algum lugar, qualquer lugar longe de mim e longe de tudo que me levaria de volta a tudo que a gente tinha. Qualquer lugar que me afastasse de você e das suas palavras e suas lembranças e do seu casaco preto cheio de bolinhas que você usava todo dia e eu não consigo esquecer. Qualquer lugar com um cheiro tão forte que eu nunca mais me lembraria do seu perfume doce e daquele dia em que a gente dormiu junto e eu reparei na manchinha que você tem no pescoço. Mas eu me esqueci do principal. É. Esqueci de jogar fora o principal, despachar aquilo que me movia, que dava sentido à vida. Esqueci de despachar a chave de tudo, o problema de tudo. Esqueci de despachar os sentimentos. Esqueci de despachar os malditos sentimentos. Juro, juro que tentei mandá-los para algum lugar mais longe ainda… Não consegui. Até hoje não consegui. Você sabe que não, e sabe o porquê. Sabe que é porque você voltou. Sabe que é porque você agora está agindo como se a minha ausência não fosse nada. Como se eu não fosse nada.
E por isso eu acho que tá tudo errado. Por isso eu acho que nada tá funcionando. Justamente porque não era pra eu estar achando porra nenhuma. Era pra eu te esquecer, eu te desprezar, eu ficar por cima. E foi o contrário. Porque, hem? Porque agora você faz questão de tornar tudo mais difícil? Porque você não me deixa simplesmente continuar vivendo como se nunca tivesse te conhecido? Porque você fica agindo como se houvesse saído da minha vida, e não sido expulso? Como se você fosse um retirante. Como se você estivesse coberto de razão, e não eu. E eu sei que eu tinha razão. Eu sei que eu tenho razão. Porque embora eu imaginasse e até gostasse de me ver num mundo sem você, eu sempre soube que não era possível. Eu sempre soube que havia imãs nos empurrando um pro outro quando a gente se olhava. Ou pelo menos achava que sabia, assim como achava que te conhecia. Eu não esperava ver você me esquecendo tão rápido. Substituindo-me tão rápido. Tirando-me e trocando como se faz com um par de meias encardidas. Como se faz com coisas desagradáveis. Eu era desagradável? Eu realmente era substituível a ponto de você não sentir a menor falta não de mim, mas te tudo que  a gente tinha? Eu achava que não. Eu jurava que não, pra ser sincera. E pode parecer egoísta, mas eu esperava ter você de volta. Eu esperava lagrimas, ligações e pedidos de desculpas da sua parte. Eu achava que a gente dava certo, e achava que a gente ia dar certo pra sempre. Me enganei.
E agora quem é fraca sou eu. Agora quem fica sozinha sou eu, e - finalmente, como se todos os meus problemas não fossem suficientes - agora quem sofre por você sou eu. Então me faço de forte, estampo um sorriso nessa cara petrificada e me finjo de palhaça, pra que ninguém perceba que na verdade eu só não queria te dizer adeus.