8 de outubro de 2011

Por mim


Inspiro. Expiro. Sinto a borda gelada da porcelana branquinha. Sinto a ânsia que vem com a dor e quase tira meus pés do chão. Tomo o cuidado de não olhar para o que faço. Tomo o cuidado de não ouvir o barulho do meu medo. Sim, medo. Não é só pelo corpo, garotão. É pela alma também. É pela alma que eu coloco o dedo na goela e me esvazio do mundo. É pela alma que me ajoelho e te expulso de mim. Com um silencioso grito, te coloco para fora. E é vomitando que eu encontro um pouco de eixo. Bem ali, com a cara na privada, querendo esta em qualquer lugar do mundo onde não me lembraria do peso imenso que é ser eu. E se faço que faço, é pra me esvaziar de mim também. Livrar-me da minha pessoa decadente. Livrar-me do fracasso que sou.
Tomo o cuidado de não dar ouvidos aos outros. Tomo o cuidado de ignorar as piadinhas. Faço uma força imensa para não ver e ouvir as coisas ruins que dizem ao meu respeito. E é difícil. Que tal eu me dar uns bons tapas na cara já que sou tão má? Porque é isso que andam dizendo. É isso que a borda clarinha da privada diz. É isso que a água fresquinha que escorre da torneira diz também. É pela raiva que sou como sou. É pela frustração que sinto o que sinto. Não é pelo que vão pensar de mim que ando fazendo o que faço. É pelo que fui e perdi. É por todos os olhares que dirigem a mim me fazendo chorar. É pela lagrima que escorre e me faz pensar que a culpa é minha se o cachorro tá morrendo lá na rua porque eu poderia ter feito algo quando não fiz nada. É pela dor que sinto de ser eu e estragar tudo sempre. É pelo medo que vem de todos os lados e me atinge com todas as flechas quando abro os olhos pela manhã. Medo. Sempre o medo. Do escuro, do vento, das pessoas, de mim. Medo do meu super poder que é arruinar tudo. É pelo peso imenso que se aloja em minhas costas apenas porque coloquei o pé no portão. Pela tristeza que está constantemente derramada sobre mim. Pelo fracasso que é uma capa invisível em minhas roupas coloridinhas de menina-que-é-alegrinha-e-sabe-se-vestir. É sobre isso, e para fugir exatamente disso, garotão. Para fugir exatamente disso que enfio o dedo na goela e vomito. É pra pedir perdão, mamãe, por eu ser um fracasso. Perdão, papai, por eu não conseguir te entender. Perdão, perdão, perdão, meu Deus, por não ter desempenhado o papel que escolhes-te para mim. Perdão.
Inspiro. Expiro. Lavo o rosto, o pescoço, o corpo. Coloco as meias branquinhas, o vestido floridinho, os sapatinhos de boneca, a capa invisível. Tomo o cuidado de não olhar pra trás. Tomo o cuidado de não me martirizar por não poder fazer nada além de esperar a próxima vez. E me arrasto mais uma vez pra cama, fecho os olhos e finalmente tento fugir decentemente deste mundo imenso e feio onde o suicídio é a única e talvez até a melhor opção.