28 de janeiro de 2012

Sobre insignificância, carência e saudade


"Ah, mas tudo bem, em seguida todo mundo se acostuma. As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade... Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é."
Hoje passei em frente ao ponto onde eu e você, debaixo do sol, parávamos para esperar o ônibus que nos levava até a sua casa. Lembrei das tantas vezes em que fui até lá: a primeira, em que sua avó me recebeu de braços abertos; a ultima, em que eu estava bêbada e gritei com você; e uma em especial: aquela noite em que eu disse não a algo que poderia ter mudado toda minha vida. Lembrei da sua cama escura, a mesa cheia de caixas e papéis, a bicicleta de ginástica que ficava no canto da sala, perto da TV. Senti tanta falta do seu sofá clarinho, sua casa quentinha, seu cachorro vira-lata, sua avó e sua mãe – que eu chamava de minha – e quase chorei. As memórias me atingiram instantaneamente, livres para causar o dano de querer voltar atrás: teu cabelo encaracolado, teu casaco cheio de bolinhas, teu cheiro excêntrico e doce que nunca mais senti. E mais: tua mania de fumar, o jeito como andavas de cabeça baixa, teu defeito de sofrer um pouquinho por todo mundo. Naquele tempo, eu significava muito pra você e minha autoconfiança me fazia não dar a mínima pra isso. Mas aí aconteceu um reboliço, lembra? E eu cortei os pulsos, mudei de curso, berrei meu pânico, saí da área de publicidade, perdi seu telefone e você sumiu da minha vida. O tempo passou. E mais que isso: você me esqueceu. Pois é.
Por incrível que pareça, depois de tantas conversas, ligações e cartas, agora sou eu quem escreve e sente saudades. Sou eu que no ápice de minha insignificância, no ponto alto de minha carência, na envoltura de minha saudade vê: você significou muito pra mim e eu acabei sendo nada além de passado para você, menina. E lembro-me do Caio, daquela citação antiga que agora vivi: toda atenta para não errar, errava cada vez mais. Compreende? Eu sei que é tarde demais e você está bem sem mim, mas ando pensando em você. E ando pensando em como tudo poderia ser diferente se naquela noite de Abril, deitada ao seu lado na cama, eu houvesse dito a verdade quando você perguntou "o que você faria se eu te beijasse?" Agora posso entender: eu disse "não sei" apenas porque não tinha coragem de assumir que você era o que eu queria mesmo. Apenas porque naquela noite eu era nada além de uma garotinha preconceituosa consigo mesma e com as outras formas de amor. E talvez até continue sendo – acho que continuo vivendo como sempre vivi, tentado ser feliz, tentado ser alguém, mas foi inevitável lembrar-me de ti e de tudo que aconteceu ao passar em frente ao ponto, nosso ponto. Você sempre me aceitou como fui, sempre me fez achar tudo mais bonito, sempre me fez rir como ninguém fazia e acho que se eu houvesse quebrado estereótipos, se houvesse aberto mão de minhas cismas, se houvesse dito o que sentia e não o que pensava ao menos naquela única noite de Abril, minha vida poderia ter sido diferente. Talvez eu não houvesse mudado de curso, saído da publicidade, perdido seu telefone, cortado meus pulsos. Talvez eu não estivesse tão sozinha a ponto de me sentir totalmente dispensável por todos, tão carente.
Eu sei que já faz quase um ano, mas eu não agüento mais passar em frente ao nosso ponto e querer chorar. Não agüento mais ler O Retirante e lembrar-me de como você se orgulhou de mim. Não agüento mais ouvir My Heart sabendo que essa musica foi o motivo de termos nos conhecido. Não agüento mais pensar em como tudo poderia ter mudado: sinto tanta saudade da gente… Era só isso que eu queria dizer.
"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais – por que ir em frente?"
Citações de Caio Fernando Abreu. Carta escrita em 27 de Janeiro de 2012 às 02:19 da manhã.