30 de maio de 2012

Milésimo e ultimo

Estávamos sentadas na sua cama estudando matemática quando você disse que eu mal sabia fazer um calculo. E que eu iria me ferrar na prova. E que você gostava de me irritar e não estava nem ai se isso me incomodava. Pela primeira vez no dia eu quis ir embora.
Depois eu estava na cozinha, havia comprado verduras e as cozinhava exclusivamente pra você. Então você passou dizendo que meu brócolis estava feio e amarelo. Provou um pedaço e disse estar sem gosto. Afirmou que não ia comer.Eu dei de ombros, ignorando sua frieza por não ter nenhuma outra opção. Foi a segunda vez que eu quis ir embora.
Horas mais tarde sua mãe nos mandou ir à padaria e saímos juntas. Me mantive otimista, jogando uns verdes descarados sobre não gostar das suas implicâncias. Você não se importou.  Me senti mal, tão incomodada com as suas variações constantes de humor que  decidi ir embora. Você me pediu dinheiro para o cigarro e eu neguei, dando sermão. Você não gostou mas voltou a agir normalmente quando eu disse que me preocupava com você. Então lembrei que precisava ir na casa de uma pessoa que morava a uns bons quarteirões, uma caminhada de 20 minutos. De lá, eu poderia pegar o ônibus e seguiria pra casa. Despedi-me de sua avó, sua mãe e seu padrasto. Você aceitou ir comigo, fomos caminhando pelas ruas cheias quando tive outra vez (depois de mais de um ano) a sensação de que era legal ser a gente de novo, que daríamos certo outra vez. Porque quando você não estava tentando me irritar ou sendo arrogante, eu simplesmente amava sua presença, seu jeito descontraído, a forma que você era diferente de todas as outras pessoas.
Eu quis te dizer o que eu sentia, quis desabafar sobre meu incomodo, e foi então que começamos a conversar durante o caminho, alias, acho que quando estamos andando não há nada a se fazer além de conversar. Perguntei por que você havia mudado tanto e você disse que era a mesma, exatamente como eu esperava. Eu disse que me sentia uma intrusa, uma burra, uma boba por continuar tentando ser sua amiga outra vez enquanto você nem se importava. Você disse que eu estava louca, que você se importava sim. Reclamei sobre você criticar meu brócolis e meu intelecto, e você disse que estava apenas brincando, que não era a sua intenção. Eu disse que sentia não te conhecer mais, e você respondeu que lamentava, que não entendia o que tinha acontecido, que era só uma fase. Perguntei se você pretendia sair dela e você disse que não sabia, mas estava tentando. Eu dei outro sermão, e dessa vez você me ouviu e pareceu entender.  Fiquei tão feliz por isso que me esqueci da hora em que você ficou falando de outras, elogiando sua namorada. Esqueci-me de que você não tocou no brócolis na hora do almoço, que você não ligou quando eu falei de um cara. E então o assunto mudou para sexualidade e, pela primeira vez na vida, tive coragem de lhe dizer que as vezes me afirmo ser determinada coisa apenas para não encarar a sociedade. E você disse que sabia, que sempre havia sentido isso, que sempre teve esse feeling. Falamos sobre budismo, espiritismo, cristianismo e sobre você. Você me contou de quando pediu ajuda chorando a sua mãe para sair da fossa e eu achei lindo, fiquei maravilhada. E lembrei-me de um momento, na cozinha, em que ela disse que você era uma pessoa melhor quando eu era sua amiga.
Foi quando chegamos à casa do tal alguém que eu deveria cumprimentar. Minhas pernas doíam. Chamei inúmeras vezes e para minha surpresa, ninguém atendeu. Fiquei frustrada, olhando o portão de madeira, esperando você reclamar por ter andado a toa. Até eu ficaria com raiva, naquela hora. Mas você se limitou a perguntar onde eu pegaria o ônibus e eu apontei para a placa, do outro lado da rua. Então, sábia, você fez aquele rosto com as sobrancelhas juntas e os lábios repuxados num bico. E disse que não queria voltar sozinha. E curvou a cabeça. E nós olhamos juntas pro fim da rua que estávamos, e lá, muito longe, podia ver vagamente a ponte que atravessaríamos pra entrar na sua rua se eu voltasse. Seriam mais 20 minutos de caminhada. Dei de ombros, demos meia volta e refazemos todo o caminho. Eu sentia que finalmente havia te entendido, que você havia compreendido meu medo e poderíamos ser amigas de novo. E voltamos pra sua casa, abismadas com a nossa sinceridade para com a outra.
Sua mãe sorriu quando me viu chegar outra vez. Eu disse que havia voltado, mas não ia ficar muito tempo e ela disse que eu era bem vinda sempre que quisesse ir lá. Foi quando percebi que, perto das pessoas, você era outra. Estávamos sentadas na varanda quando você começou a discutir vegetarianismo comigo e disse que eu era sensível, boba demais. E depois, enquanto lanchávamos, você voltou a ser exatamente a mesma de 1h atrás: a menina arrogante que eu não conhecia. A estranha no corpo da minha amiga. E eu disse outra vez que você estava sendo rude e que era como se não houvéssemos tido conversa nenhuma, porque você estava me maltratando. Foi a terceira vez que quis ir embora, e dessa vez a vontade me veio como um tapa na cara, porque estávamos ótimas e de repente você havia estragado tudo.
Fomos para o seu quarto e você colocou uma música do Legião Urbana.  Eu disse que não era fã da banda, que queria mesmo ouvir Los Hermanos. Então você começou a berrar que LU era melhor que LH e só as pessoas estranhas que andavam comigo discordavam disso. E você começou e discutir outra vez, questionando meu gosto musical, meu corte de cabelo, meu eu.
Foi quando eu me enchi. Peguei a bolsa e bati porta do seu quarto respondendo que eu não agüentava mais. Me despedi outra vez - muito rapidamente, e gostaria que houvesse demorado - de sua família, dando tchau de longe. Caminhei até o portão, percebendo, então, que chovia muito forte (e é verdade, não estou inventando). Parei debaixo da cobertura de seu muro, do lado de fora da casa, recostando-me no portão. Quis chorar, quis voltar por uns segundos pra te dar tchau pela ultima vez, mas não o fiz. No bar ao lado, Adriana Calcanhoto chorava "rasgue as minhas cartas e não me procure mais". Estendi o braço para o temporal, dividida entre me afastar logo ou ficar ali embaixo, me protegendo da chuva. Olhei para o quintal mais uma vez, e vi que não, você não vinha nem viria atrás de mim. Deixava-me partir tranqüilamente, ir embora feito algo sem valor porque você simplesmente não se importava. Respirei fundo, me afastando o máximo possível do seu portão de ferro e olhando pela ultima vez a arvore esverdeada do corredor da sua casa. Lembro-me que começou a tocar Bleeding Love e eu quis me jogar no chão e chorar outra vez. Mas não o fiz. Não chorei, não gritei e não voltei. Dei sinal para o ônibus que passava e vi sua rua ficar pra trás enquanto eu me sentava no banco. O ônibus fez exatamente o mesmo caminho que havíamos percorrido em paz e em vão, pouco tempo atrás. Mas me recusei a olhar para a janela ou me martirizar. Coloquei os fones de ouvido, engoli em seco e, bem alto (mesmo que em minha cabeça) te gritei um milésimo e ultimo adeus.