2 de fevereiro de 2013

Mais do mesmo


Eu não sei me amar. Eu não sei vestir a capa da auto-segurança. Tenho 17 anos de idade e ainda não aprendi a lidar com a sociedade sem parecer uma louca. Não o tipo louca-divertida que faz uma palhaçada pra tirar os amigos da rotina e todo mundo curte. Eu sou o tipo que surta e desata a falar no quanto as pessoas são más e ninguém gosta de mim e que não entendo porque todo mundo sempre vai embora, quando na verdade sou eu quem foge de todas as formas de comunicação possíveis.
Pela manhã levantar. Espanar o pó da escrivaninha, a louça suja, fazer a cama. Comprar legumes pro almoço e colocar os fones de ouvido. Porque eu não sei ligar o automático no ônibus, quando a menina bonitinha se exibe pro menino bonitinho e eles se beijam. Porque eu não sei como se faz pra ser segura ou divertida. Eu não sei deixar de ser carente ou sozinha ou chata – quase insuportável. Mas sou uma boa menina, sou tão eficiente e flexível... Eu cozinho muito bem, tenho bom gosto musical. Leio coisas boas e gosto de pensar na complexidade da vida; Eu sou uma bailarina muito dedicada, aliás, eu sei fazer tripla pirueta. Preparo um bolo de chocolate vegano ma-ra-vi-lho-so. Eu nasci com o dom de descobrir bandas legais que ninguém nunca ouviu. Amo os animais a ponto de me abster de qualquer alimento ou produto proveniente de seus respectivos sofrimentos. Sei esconder magicamente todas as espinhas com maquiagem barata. Me visto bem e, modéstia parte, sou compreensiva e tolerante. Mas não sei ser feliz. Eu não sei ser legal sem perder minha essência. Porque eu faço parte do pior tipo de gente: o tipo de gente que pensa. Faço parte do tipo de gente que não sabe ligar o automático.
Eu não sei ser como as pessoas que levantam e se divertem e saem de noite e vivem a vida. Porque eu penso repenso e trepenso. Aquela colega me convidou pra viajar com ela, mas acho que é melhor ficar sozinha porque eu prefiro ficar em casa, e me lamentar. Prefiro cuidar dos meus gatos que não podem passar duas semanas sem mim. Decidi não correr riscos, porque eu não sei esquecer a tristeza. Porque eu não sei me amar e, conseqüentemente, não sei amar ninguém por mais que esse seja meu maior desejo. Vivo num impasse entre parar de me adaptar ao mundo vs. deixar que o mundo se adapte a mim. É que desaprendi a lidar. Amanhã eu levanto e leio Caio Fernando e danço e descanso. Amanhã ouço Fresno, Cícero, Radiohead outra vez. Amanhã eu tento fazer algo útil, mas por enquanto vou apenas sentir toda a ojeriza por ser a pessoa mais desprovida de amor que conheço. E eu poderia terminar esse texto dizendo qualquer coisa, mas vou dizer apenas que entendo perfeitamente a frase “não é todo rio que tem um mar pra se encontrar”.